O Perdão e a Cara de Pau
domingo, dezembro 02, 2018
Madrugadas sempre foram um lugar bom pra pensar. Lugar, sim,
não um período, uma hora qualquer... Parece que nas madrugadas somos literalmente
transportados para um mundo interior, de encontro e reflexão.
E aqui me encontro hoje, na minha madrugada. Uma das mais
ativas dos últimos tempos. E hoje quero escrever sobre o perdão.
Sinceramente, não me acho digna do tema, uma vez que não sou
nem de longe merecedora de perdão algum. Mas entendi nessa longa estrada que é
justamente pelo fato de não merecermos nada que pudemos ter direito a tudo.
Mas ainda assim, não me sinto confortável ao discorrer sobre
isso. Ser perdoado requer de início duas atitudes: se arrepender do que fez e
pedir pelo perdão. O constrangimento e a vergonha te levam a fazer isso. O que
me aflige é o
"consequentemente". Pois, uma vez que pedi perdão
e fui perdoada, "consequentemente" devo não repetir aquela atitude.
Mas o perdão que você recebe não retira sua inclinação para repetir o ato que te
levou a pedir perdão no primeiro momento.
Se foi devido a uma falha de caráter, você vai ser perdoado,
mas ela vai continuar lá. E tem sido essa minha ferida aberta. Eu gostaria que
existisse, juntamente com todos os perdões, um "vale mudança de mente e
coração", que você poderia acionar e 'voilá', nunca mais teria vontade de
cometer aquele erro de novo.
Infelizmente não existe.
Vamos falar então sobre Deus. E sobre o perdão. E a minha
cara de pau gigantesca.
Começando pelos fatos: Errei, me constrangi, vi que era
errado, me arrependi, e pedi perdão. E de acordo com a palavra, Deus me
perdoou, pois quando Jesus se sacrificou, pagou o preço pelos pecados, passados
e futuros.
Fatos esclarecidos, continuo agora com a minha cara de pau.
Procurei bastante pelo meu "vale mudança de mente e coração", mas
confirmei que realmente ele não vem junto com o perdão e a misericórdia.
Como disse o profeta Jeremias, "O coração é mais
enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de
compreendê-lo?". Se você estava esperando uma resposta para essa pergunta
Jeremias, a minha é: eu não.
Não sou capaz de compreendê-lo nem de muito longe. Amo a
Deus de todo o coração, e durante toda a minha vida acreditei que essa
afirmação me impediria de pecar em qualquer área. Pois se amo a Deus acima de
tudo, a vontade dele sempre será superior à minha.
E a parte teórica está correta, é exatamente isso aí mesmo.
O problema é quando chegamos à parte prática e a teoria precisa ser aplicada.
Amar é verbo, o amor requer atitude. Atitude de se renunciar, de se negar, de
ceder, de ouvir, esperar, suportar, crer.
Pois bem. Cometi algo errado, pedi perdão, esperei
magicamente a vontade de errar sumir e ela? Ficou. Arrisco a dizer que aumentou
e tem aumentado. A tal da tentação né? E de repente, me vi caindo de novo. Ora
ora moça, se amas, porque não te negas?
É a pergunta que me faço praticamente todos os dias. Querida
Karine, qual a dificuldade em negar a si mesma? Na teoria, nenhuma. Mas na
prática...
E isso me envergonha. Como conversar com um Pai, que espera
algo de mim, me deu o presente maravilhoso da misericórdia, já me perdoou e que
eu continuo decepcionando? Não que um dia eu tenha sido perfeita, nem de longe
cheguei a ser. Mas antigamente eu conseguia reconhecer o erro, pedir perdão e não
voltar mais.
Agora parece que conforme a idade vai passando, o jogo da
vida vai ficando mais difícil, mudei do "easy" pro "medium"
sem nem saber. Se um dia eu chegar ao nível "hard” acho que aí é que me
enlouqueço de vez.
Hoje me sinto como se estivesse sentada em frente a uma casa
que precisasse ser demolida, com as ferramentas nas mãos, e orando a Deus todos
os dias antes de dormir "me ajude a destruir essa casa", mas de
manhã, sento de frente a ela e coloco as ferramentas no colo. E ali fico
estacionada, sem coragem de destruir aquilo que precisa ser destruído.
A casa não é minha, mas eu me apropriei dela. Agora que
preciso ficar livre já peguei apego. Troquei a marreta pelo martelinho e sigo
retirando uma lasquinha de tijolo por vez, ao invés de destruir tudo com uma
dinamite logo, que era minha obrigação como pessoa perdoada que recebeu uma
nova chance.
E não, não tenho solução pra isso, não solucionei meu caso
de cara de pau, continuo pedindo ajuda sem muita mudança, e sigo seguindo, sem
a menor das vontades de ver essa casa ser demolida. Na verdade, a depender de
mim investiria nela, faria até uma reforma, mas o amor da minha vida, Deus, não
quer essa casa pra mim.
E eu continuarei com a minha cara de pau, pedindo a ele
ajuda para querer não querer mais essa casa, até que funcione e um dia eu
vença.
Outros textos meus já ajudaram alguns, mas esse aqui é pra
ajudar a mim mesma.
Eu tô perdida das ideias, e pra piorar, tô na madrugada.

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